O que o seu endereço tem a ver com os seus investimentos?

Vamos começar por uma provocação:

Se você morar no Rio Grande do Sul, você deveria ter mais ativos gaúchos como Randon e Marcopolo em detrimento a ativos como Petrobrás (RJ) ou Suzano (SP)?

Essa premissa não faz nenhum sentido, pois não há nenhuma correlação entre bons ativos com o endereço onde você mora.

Porém, se ampliarmos um pouco mais a geografia, podemos ver que esse comportamento é mais comum do que se imagina. Veja:

Fonte: Charles Schwab, Macrobond, World Federation of Exchanges IMF, WorldBank, feb/2022

Vamos ao extremo de concentração geográfica (em ativos do próprio país): Bangladesh, Índia e Turquia. Os residentes destes países praticamente investem somente nos seus próprios países. Não parece sensato sob qualquer ótica. (Detalhe: Brasil está quase lá!)

Por outro lado, temos os países com investidores mais internacionalizados: Áustria, Singapura e Alemanha. Com certeza, a legislação favorável e a cultura de investimento internacional ajudam. Pode-se argumentar também que Áustria e Singapura são países pequenos, o que faz sentido para seus investidores procurarem ativos fora do seu país. E a Alemanha? É o 4º país em PIB e apresenta elevada internacionalização.

Vamos ver o caso dos EUA: a sua capitalização de mercado é em torno de 50% da capitalização mundial, e a carteira de investidor americano é composta de 75% de ações domésticas e 25% de ações internacionais. Mesmo os americanos, com a economia mais rica e diversificada, direcionam 25% dos seus investimentos para fora dos EUA

E o Brasil? 97% dos investimentos em ações estão em ativos domésticos! Dado que o PIB brasileiro representa 1,7% do PIB mundial, esta concentração em ativos brasileiros é excessiva sob qualquer ótica. Com uma economia mais baseada em commodities, os brasileiros direcionam apenas 3% dos seus recursos para fora do Brasil, um sinal que podemos estar ficando para trás!

O que leva o investidor ao Home Bias?

Podemos identificar 3 principais categorias:

  • Motivos institucionais: possível existência de barreiras, impostos e dificuldades operacionais;
  • Gaps de informação: assimetria, padrões de reporte, familiaridade ao ambiente de negócios e deficiência na assessoria/orientação;
  • Comportamento específico dos investidores: otimismo e crença nos ativos do próprio país, experiência, familiaridade, e até mesmo lealdade ao país.

A boa notícia é que várias destas barreiras no Brasil já estão superadas:

  • A legislação facilitou a transferência de recursos de brasileiros ao exterior;
  • Os impostos são análogos aos cobrados no Brasil;
  • A tecnologia atenuou as fronteiras e tornou possível investimentos a partir de valores baixos;
  • Os reportes aos investidores convergem a padrões internacionais;
  • As empresas disponibilizam cada vez mais produtos, serviços e informações globalmente – não só estamos familiarizados com os produtos e serviços das empresas como Google e Disney como recebemos notícias sobre a sua performance.

Então, leva-se a crer que a baixa internacionalização dos brasileiros está mais ligada a aspectos comportamentais e a disponibilidade de assessoria.

As implicações de Home Bias

Performance enviesada

Uma carteira concentrada fica exposta a fatores específicos do país. Vamos pegar o caso do Brasil: os investimentos são muito atrelados a commodities e ao setor financeiro, com baixíssima exposição a setores como Ciências Médicas ou Tecnologia. No período de pandemia, ficou evidente que a ausência destes setores deixou a performance a desejar. 

Hedge ineficiente

Parte do gasto do brasileiro já está dolarizado: combustível, alimentos, celulares e computadores, além de viagens ao exterior. As despesas dolarizadas, sem o correspondente ativo dolarizado, traz um risco de descasamento.

Proteção / risco de fronteira

Instabilidades políticas e econômicas específicas do país afetam não só o dia-a-dia, como também os investimentos. Ter uma parte de investimentos segregados, de forma a descorrelacionar aos riscos do país, é regra de ouro de diversificação.

A boa notícia

Todos têm home bias: é da natureza investirmos em algo familiar e evitar o desconhecido.

A boa notícia é: com assessoria de qualidade e conhecendo o viés inconsciente, é possível superar a armadilha comportamental e construir uma carteira de investimento com diversificação internacional.

A internacionalização é uma tendência que os países desenvolvidos já passaram, os países de renda média como Brasil já praticam, e os investidores brasileiros estão conscientes e passam a demandar. A expectativa é caminharmos para o exemplo da Áustria, e nos afastarmos do exemplo de Bangladesh.

Por: Lin Jwo Shiow, Stratton Capital Investment Advisory

lin@stratton-capital.com